Lembra daquela vez que corremos juntas, embaixo do sol, envolta das estrelas? Como sonhamos juntas à luz do luar? Sonhamos sobre peixinhos multicoloridos, e sobre como, se nós quiséssemos, o mundo inteiro podia ser só meu e seu. Poderíamos voar, respirar debaixo d’água, atravessar paredes de pedra e aço, ter a força para correr até o fim do mundo — até o limite do universo. Mas nada tinha limite para nós. O tempo, o espaço era tudo um fruto da nossa imaginação. O nosso mundo inteiro fazia-se e desfazia-se dentro dela. A nossa imaginação era a mesma — uma coisa hiperpotente, superpotente, maxipotente, nunca impotente. Para nós, tudo fazia sentido. As leis da gravidade eram aplicadas para tudo à nossa volta, mas, para a gente, não. Flores cresciam, árvores, frutas, parques, pontes… mares e lagos brotavam do céu. Pulávamos a altura dos prédios mais altos. Construímos elevadores que andavam para cima, para baixo, para um lado e para o outro, nas diagonais, em círculos. Elevadores que iam até a lua, marte, vênus, plutão. Para nós, o plutão era e sempre seria um planeta. Assim como borboletas sempre nasciam sabendo como voar. Assim como lagartixas eram algumas das nossas melhores amigas. Tomávamos banhos com tartarugas com freqüência. Tirávamos carrapatos de cachorrinhos. Fazíamos com que os menores carros de criança tivessem espaço suficiente para nós duas. Chorávamos quando caíamos no chão, esculachando os nossos joelhos. Brincávamos com bonecas. Criávamos vidas, e, depois, nós as colocávamos de volta numa caixa vazia, pequena, transparente. Era um verdadeiro aquário, que, quando esvaziava, enchia o mundo de possibilidades. Não lembro bem quando paramos de acreditar. Sei que eu com certeza fui a primeira. Só sei que agora o mundo faz muito mais e muito menos sentido.
Meu estômago ainda dá voltas. Sabe, daquelas voltas que você não sabe se são de prazer ou de dor. Observo o sol nascer, vindo de um lugar invisível (portanto inexistente), a luz cresce lentamente sobre as fachadas de seus prédios altos. Os ônibus já começaram a passar. Pessoas vestidas cuidadosamente poem se nas ruas, caminhando, talvez perto, talvez longe de seus destinos finais — mas provavelmente estão perto. Meu amor, sinto lhe dizer… mas você é o destino final. Você é o motivo que as pessoas passam a noite em claro, ou acordam às cinco horas da manhã. Todos querem um pedaço de você. Como gosto de você. Cheia dos prédios, dos ritmos, das pessoas, dos sons, das batidas, das luzes, do sol, das estrelas, da lua, da música, das alturas… de altura. Nunca tive medo de altura, mas sempre tive medo de cair. Tenho aqueles sonhos, sabe? Estou escalando o lado de fora de um prédio, olho para baixo, e vejo uma imensidão — um mundo inteiro, só meu. Inteiro meu. Aí começa aquela sensação no estômago… aquela que alterna entre uma sucuri apertando os meus intestinos, e um floco espantado de borboletas multicoloridas tentando escapar. Meu pé desliza e logo não encontra-se mais preso a nada mais do que a gravidade e o espaço entre o meu corpo e a calçada. Acordo com falta de ar, sem voz, e com um grito preso na minha garganta. Meu pulso está acelerado — venho desse sonho me sentindo realmente viva. E é assim que me sinto quando venho de você. Mesmo que você não passe de um sonho efémero.
Posso perguntar?
Suspiro. Relapso. Daqueles. Maiores. Céu. Estrela. Mimosa. Miamos. Assim.
O que significa uma palavra? O que significa um nome, um som, uma vogal, uma letra? O que significam estes na minha mente? O que os diferenciam das do mundo real? O que é o mundo real? O que é real? O que é natural? O que é controlado? O que é um sonho? O que é você? O que sou eu? Qual é o meu limite? Onde acaba o meu corpo? Onde acaba minha mente? O que é minha alma? Onde ela acaba? O que define existir? O que define não existir? O que faz sentido? O que não faz sentido? Por que isso faz sentido? Por que isso não faz sentido? Porque? Por que? Por quê? POR QUE? Pelo que? Por favor? Pára? Papagaio? Eu canto, você canta, ele canta, nós cantamos? Por que? O que é sentir? O que é pensar? O que é ilusão? O que é pensamento? Qual é a diferença? O que sou eu? O QUE sou eu? O que SOU eu? O que sou EU? Não sei? Não sabe? Você sabe? Ah é? É mesmo? O que é linguagem? O que é comunicar? O que é um sinal? O que é a verdade? A verdade existe? Não sabe? Acho? Não sei? Qual é o seu limite? Não sei.
Sozinho
A sábia mulher entrelaçava seus dedos. Esperava um trem chegar. Cada instante era um sopro de ar, cada suspiro, uma alegria. O momento estava para chegar. Depois de hoje, ela jamais seria a mesma. Jamais voltaria a ser o que era antes. Os seus pensamentos percorriam sua mente em círculos, voltando sempre ao mesmo lugar — “Agora vai ser differente. Agora tudo vai mudar. Daqui a pouco terei ar de verdade, uma luz só minha, um lugar só meu.” O círculo a fazia sorrir. Ela mal sabia como seu rosto ficava mais e mais vermelho à cada volta. Pela primeira vez, ela sentiu o seu coração, e todas as veias de seu corpo, pulsando, dançando, mantendo um ritmo que delineava o entrelaçar nervoso de seus dedos. Pela primeira vez, ela sentiu o limite entre o seu ser e o seu não ser. Mas, percebeu ao mesmo tempo, que ela era tudo à sua volta. O banco onde sentava. As luzes da estação. O sorriso de um estranho. Vinha tudo de dentro dela. Pela primeira vez, a menina abriu os olhos. Ela estava presa numa cama. Não havia nada a segurando fora o fato de ela não conseguir se mexer. Ela tentou levantar um braço, mas mal conseguia senti-lo. Tentou mexer os dedos do pé, mas não sabia onde estavam. Os seus olhos eram tudo que ela podia direcionar, então ela os fez percorrer o campo de visão — ela estava numa sala branca, vazia. Ela não tinha para onde fugir.
Estágio
Observando a neve caindo do outro lado de uma grande janela. Eu troco o foco do meu olhar, observo primeiro as pessoas afora, agasalhadas contra o frio, seus bafos quentes, uma fumaça branca. Os prédios altos, imóveis, inflexíveis, imperecíveis contra o frio. Depois olho para o vidro, observo as intransparências desse material existente e inexistente. Palpável mais invisível. Esta manhã, o sono torna-se uma segunda protagonista na minha vida. Ele está lá, sentado no meu ombro esquerdo, pesando, suspirando, cantando uma canção de ninar, mas ao mesmo tempo suplicando para eu não dormir, pois dormir seria pôr um fim na sua existência. São nessas horas que eu percebo que sou uma pecadora contra a minha única fé — dormir. Percebo que há uma razão para acreditar que o sono traz felicidade. Que mesmo que dormir, de certa forma, signifique menos tempo para viver, dormir também significa paz. O tempo perdido pelo sono é um sacrifício — da mesma forma que as virgens eram tostadas nos confins dos vulcões, para que houvesse chuva, eu sacrifico minhas 8 horas, diariamente, para manter uma forma de equilíbrio sobre minha vida. Essas 8 horas são um sacrifício pelas demais. Durante essas 8 horas eu espanto o demonio do meu ombro esquerdo, e garanto minhas 16 horas de vida. Mas sempre há a tentação. Nas altas horas da madrugada, quando o sono sussurra em meus ouvidos: “não durma, não durma, a noite é jovem, como você.. você tem tempo para dormir, muito tempo para dormir — você terá ainda mais tempo para sonhar quando estiver morta.” Eu sinto um calafrio. Mas continuo acordada. Eu sei que é errado, mas a vontade de ficar acordada me transborda. Os segundos transformam-se em minutos, os minutos em horas — logo, já é quase manhã. E para onde foi o tempo que eu tinha para dormir? Para sonhar? Para fazer o meu sacrifício diário? Acredito que seja por isso que nunca lembre dos meus sonhos. Por mais que minhas 8 horas me garantam as energias cósmicas para um razoável decorrer do dia, os meus pecados me mantém presa, fora do alcance do mundo dos sonhos. Um mundo surreal, impossível, mas abrangente. Um mundo que pode me garantir qualquer objeto que eu deseje, mesmo que seja inexistente. Ao acordar, sempre me pergunto: “será que escolhi o mundo certo?”, o ser sentado no meu ombro esquerdo diz que sim.
Paulista
Um músico canhoto está de pé, esperando um metrô. Sabemos tudo o que ele é por causa das suas mãos. Os seus dedos são todos longos, os da esquerda tem unhas compridas, os da direita tem unhas curtas, bem cortadas. As pontas de seus dedos da mão direita são repletas de calos, e ele os acaricia com o dedão da mesma mão, maravilhando no poder que mesmo o seu próprio corpo tem de criar. Ele recorda com uma certa nostalgia como as pontas de seus dedos rasgavam-se no começo, quando ele tentara domar pela primeira vez o seu poderoso instrumento. Recorda como a dor o dava um senso de privilégio, de conquista. Lembrou-se de uma vez quando as pontas de seus dedos chegaram até a sangrar. Ele mal sabia, mais fora neste momento que ele fizera um pacto — a partir de então, ele possuía a alma de seu instrumento o tanto quanto seu instrumento possuía a alma dele. Ele e sua música eram parte do mesmo ser. Todos as pessoas à sua volta passaram a seguir e a movimentar as melodias da sua vida. Sua percepção do mundo era governada por sons, batidas, inflexões. Estava de pé ao lado de um homem vestindo calças jeans e camisa verde — esse homem é a bateria, o seu olhar de desprezo proporcionava um ritmo tenso, mas uma batida forte ao mundo do músico. Do outro lado da linha, um homem de camisa xadrez observava as pessoas a sua volta com uma certa arrogância, um tom certeiro, mas quieto — esse homem é o baixo, e com cada troca de foco, os dedos ágeis da mente do músico deslizam sobre as casas do instrumento, sempre parando na nota certa. No outro lado da plataforma, o trem chega. Enquanto as outras pessoas ao seu lado suspiram impacientemente, virando suas cabeças bruscamente em direção ao túnel vazio, como se isso fosse fazer o metro chegar mais rápido, o músico continua na dele. De pé, abertamente focado em tudo à sua volta. Ele calmamente observa o trem do outro lado freiar, as portas abrem. Sentada nesse trem jaz uma mulher de saia branca e blusa laranja florida. Ela é a voz da guitarra. Ela torna-se a melodia no mundo do músico. Imóvel como uma estátua de mármore, como uma montanha, como uma tumba — mas viva como uma árvore, como uma mulher, como uma flor. Tão viva quanto todos os outros seres à sua volta. Mas essa é especial. Ela é o instrumento deste músico. Ela possui sua alma. As portas fecham. O trem parte. A melodia para, mas a música continua. O mundo do músico se faz e se desfaz. Os acordes trocam, a melodia troca, o tom troca — a música começa, mas nunca termina; pois esse mundo não é só do músico, esse mundo é de qualquer um. Vida é percepção.
Um chão azulejado, branco e preto.
Você pode parar um pouquinho? Estou criando uma memória. Uma memória com cheiros e sons. Com luzes e palavras. Com sabor e textura. Mas mais do que tudo isso — estou tentando criar uma memória dos meus sentimentos. Estou definindo esse momento para poder lembra-lo melhor. Estou definindo este momento para ele não perder importância, para ele não transformar-se em um dos milhões de momentos cinzas, numa parte não-especial dessa processão repetitiva que define todas as nossas vidas. Uma processão tão repetitiva que ela quase torna-se sem nexo. Ironicamente, pois é exatamente essa repetição que faz ela parecer tão natural, tão certa.
Hoje eu fui numa casa de desconhecidos. Bebi suco, comi chocolates, e me embriaguei com o cheiro do vinho, mas mais do que com isso — com o som da sua música. Você fez o meu dia, a minha semana, o meu mês, o meu ano. Você me lembrou do fato de que as coisas mais certas são as que acontecem repentinamente. São as que acontecem quando você decide falar sim em um momento inesperado. Quando você deixa-se enamorar pelas possibilidades de um evento atingível, mas surreal. Eu moro no mundo das maravilhas, sabia? E no meu mundo maravilhoso você esta aí.. no sofa ao lado, tocando e cantando. Rindo e falando. Vivendo e inventando. Você me faz querer criar, você me faz querer sorrir. Mas mais do que tudo você me faz querer lembrar. Quero lembrar cada acorde, cada troca de tom, cada suspiro. Neste momento, a única pessoa que quero ser mais do que você, sou eu — porque enquanto você está ai, mostrando para outros seres tudo o que você pode criar, expondo o seu interior para o mundo, eu estou sentada aqui, te escutando. Não estou fazendo nada, mas nesse momento me sinto parte de você. Me sinto parte da sua vida, me sinto parte desse momento, mesmo que ele seja só parte de mim. Pode continuar agora, só não deixe-me esquecer.
Dona Leila
A mulher chamava-se Leila. Leila era uma mulher forte, mas seus anos de vida já estavam a puxar sua pele fraca, formando vãos e excessos em lugares novos todos os dias. Leila amou muitos. A sua paixão era amar, e por isso dedicava todas as suas forças (que eram inesgotáveis) e o seu tempo (que era precioso) a este esporte. Ela vivia amores platônicos, namoros innocentes, paixões indomáveis, relacionamentos confortáveis, adorações misteriosas — qualquer coisa que ela pudesse amar, ela amava.
Poucos sabiam, mas Leila tinha um segredo. Dentro de seu armário, acima de um coração feito de rosas, estava uma lembrança — sem a qual Leila imaginava que nunca poderia amar. A lembrança era de algo que tinha a marcado. Muitas vezes, quando perdida no embaraço que era amor, Leila pensava em destruir essa lembrança, tascar fogo nela e nas belas pétalas de rosa que a circulavam. Assim, ela não teria mais que lidar com aquela sensação excruciante. Logo, não sabemos se por covardia ou por mera força de vontade, Leila desistia da idéia, e aceitava o amor junto a todas suas perdas, suas dores, suas aflições. Poderíamos dizer que fora a lidar com essas coisas que a deixara tão forte. Poderíamos dizer também que fora a permanência da lembrança em seu armário durante anos, décadas, milhões e bilhões de momentos que a deixara neste estado. Será para sempre um mistério.
A lembrança era uma coisa palpável, mas que Leila jamais tirava do armário. Por anos e anos ela ficava lá, numa floresta de pó e teias de aranha, esperando que Leila a destruísse, desistisse dela. Mas as rosas em seu entorno eram as mais belas rosas, nunca morriam, nunca deixavam de lançar seus perfumes. Continuavam vermelhas e abundantes, fazendo a floresta quase parecer um jardim. O cheiro das rosas perfumava todas as roupas da Dona Leila, inclusive a lembrança. Cada vez que ela abria o armário para procurar um modelito para vestir, o perfume a fazia pensar sobre seu passado. Inclusive, todos que já amaram ou foram amados pela Leila recordavam com uma certa nostalgia o seu leve perfume de rosas.
Uma conversa no escuro
É uma noite fria, escura. A lua, inexistente. A única fonte de luz são as nuvens, que refletem com os seus esvoaçantes corpos brancos o restinho do sol. Duas figuras estão sentadas no banco de um parque vazio, contemplando.
- “Sabe de uma coisa?”, diz a primeira.
- “O que?”, responde a segunda.
- “Eu gosto de você.”
- “Ah, é?”
- “É.”
- “E o que isso significa?”
- “Significa que eu te quero bem.”
- “Ah, legal.”
- “Você não tem mais nada para dizer?”, a primeira voz pergunta, com um tanto de irritação.
- “Não tenho idéia do que falar, desculpe.”
- “Bom, tabom então.”, a primeira diz, mesmo que esteja mentindo.
Alguns momentos se passam, as duas figuras continuam sentadas, uma ao lado da outra, sem dizerem nada.
- “Eu acho que eu te amo, sabia?”, diz a segunda voz.
- “Ah é?”, responde a primeira, com um tom de ambivalencia, não quer cair nessa.
- “É.”
- “E o que você quer que eu diga?”
- “Quero que você diga que me ama também.”
- “Já disse que gosto de você…”
- “Você não me ama então.”
- “Não foi isso que eu disse.”
- “Então porque não fala que me ama?”
Uma pausa.
- “Como vou saber?”, pergunta a primeira voz.
- “Como assim?”, responde a segunda.
- “Como vou saber se te amo? Eu sei que eu gosto de você. Eu sei que te quero bem. Eu sei que está frio. Eu sei que esse vento gelado está me tirando do sério. Eu sei que é uma noite sem lua. Eu sei que… E como é que você sabe, hein?”
- “Eu sei que te amo, porque não tem nenhum lugar no mundo onde eu preferiria estar, nenhuma pessoa com quem eu preferiria estar, e porque de todos os momentos que existem no universo, eu não trocaria nenhum deles por estar aqui, com você, agora.”
- “Foi uma boa resposta, parabéns.”
- “Eu sei, mas agradeço.”
A Ilha
Existia um homem. Existia uma ilha. Um belo dia, os dois se encontraram. O homem estava a velejar, e deparou-se com um ponto entre o céu e o mar. Um ponto verde, farto de frutos, de promessas, de possibilidades. O ponto parecia infinitamente longe, mas quanto mais o homem o desejava, o mais tornava-se perto. Logo o ponto transformou-se em uma ilha. O homem ficou maravilhado. A cada instante a ilha ficava maior e melhor. Ela estava ali, sozinha, no meio do mar, no meio do céu, simplesmente suplicando para ser descoberta. Parecia gritar: “Olhe para mim! Sou verde, sou verde! Não azul! Sou diferente do resto, sou palpável, sou sólida!”. O homem foi seduzido pelos prantos que ele imaginava ter vindo da formosa ilha. Como uma sereia, a ilha o chamava. Finalmente, com a chegada de seu pequeno veleiro em sua costa, ele pode fincar as suas botas negras nas areias brancas da praia. Por mais que fosse uma areia fofa, arejada, o marinheiro sentiu-se em pé pela primeira vez. A principio, ele quase caiu. Lentamente, cuidadosamente, ele se agachou, sentou na areia. Com uma mão, ele levantou um punho de areia, deixando pequenas cachoeiras esvoaçarem de seus dedos entreabertos. O mesmo vento que tinha o soprado até a ilha fazia a areia se desfazer por todos os lados. O homem estava maravilhado com a sua conquista, levantou-se, e rapidamente pôs-se a percorrer o resto. Por todos os cantos que ele andava, a ilha o oferecia dádivas. Quando ficou com sede, o homem deparou-se à um córrego de águas transparentes; quando ficou com fome, ele encontrou um pequeno campo encoberto de árvores com as mais doces frutas das mais variadas cores e tamanhos. Cores que jamais tinha visto. Vermelho, laranja, rosa, roxo, amarelo… até azul, mas essa cor o marinheiro já conhecia, e quase nem reparou sua existência. Tudo estava indo muito bem, com cada nova descoberta, o homem ficava mais contente consigo mesmo. O mundo parecia fazer-se e abrir-se à sua volta. Mas depois de poucas semanas, tudo voltou a tornar-se azul. Cada fruta, que antes tinha a sua própria cor e o seu próprio gosto, ficou igual às outras. As coisas que antes tinham o maravilhado começaram a entedia-lo. Um dia, depois de alguns meses na floresta, o marinheiro voltou à praia. Ele sentiu como se tivesse visto o mar pela primeira vez. A sua imensidade atraía o homem como um imã. Foi assim que o homem deixou a ilha para traz. Voltou ao seu veleiro com a convicção de que tinha que existir mais no mundo do que essa pequena ilha. Voltou ao alto-mar com a cabeça erguida, sem olhar para traz. E assim que o homem desfez-se do último grão de areia branca que o mantinha preso às terras verdes, a ilha desapareceu. Sem mais ninguém para diferencia-la do céu e do mar, a ilha voltou a ser o que era: inconsequente, inexistente.
